Mecanismo de Revelação

Abril 20 2016

Numa recente notícia o Primeiro-Ministro com o seu Ministro do Planeamento e das Infraestruturas, António Costa e Pedro Marques, dois veteranos da era Sócrates, anunciam com a pompa devida uma nova política de incentivo a pequenas e médias empresas. Revelando elevada consistência argumentativa com as dialécticas da sua ideologia, o ministro Pedro Marques afirma mesmo que as "empresas envolvidas deverão ter um aumento das exportações na ordem dos 60%".

 

E aqui fica o mote para os gráficos da semana. É mais que consensual entre economistas que as empresas que se dedicam às exportações são precisamente as grandes empresas. Poderia avançar com algumas das explicações habituais pelo qual isto acontece (Melitz, 2003), apenas vou dizer que não é por exportarem que as empresas ficam mais produtivas, mas é sim por serem mais produtivas que exportam. Mas como este é um comentário sobre dados, vamos saltar logo para a parte da evidência.

 

Para a primeira tabela, retirada de um relatório da OCDE, evidenciam-se as diferenças entre empresas exportadoras e não exportadoras. É notório algum padrão? Fica a ajuda, empresas exportadoras empregam em média 41 trabalhadores contra 8 das não-exportadoras; face à média os exportadores têm uma productividade superior em 13% enquanto não exportadores têm -5%.

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Segunda figura, da Economist: produtividade medida como valor acrescentado por empregado para diferentes dimensões de empresas; distribuição da dimensão de empresas entre países da União Europeia. Conclusão: empresas pequenas são pouco produtivas e os PIGS são os países com a estrutura produtiva mais enviesada para pequenas empresas.

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Finalmente, para tornar as coisas ainda melhores para Portugal, o seguinte gráfico, retirado de Braguinsky et al. 2011, mostra como o número de pequenas empresas tem ganhado peso no total de empresas: se em 1986 o número médio de trabalhadores por empresa era cerca de 16, em 2008 essa estatística passou para 9. Somos mesmo dos poucos exemplos da OCDE onde tal aconteceu com tal velocidade!

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Todos os nossos sucessivos governos estão de parabéns por tanto apoiarem as pequenas e médias empresas em detrimento daquelas que realmente são produtivas, que pagam altos salários, e que empregam mais trabalhadores (outras diferenças incluem, poluem menos, acumulam mais capital, etc.).

 

publicado por Palamedes às 19:13

Janeiro 23 2012

A defesa absoluta dos direitos de propriedade intelectual começa a atingir patamares insuportáveis. O SOPA e o PIPA são duas leis em estudo que, entre outras coisas, permite aos autores elevada discricionariedade para barrar websites suspeitos de promoverem a 'cópia não autorizada'. Aos olhos do legislador, direitos como o da comunicação, privacidade ou concorrência são subsidiários em relação aos direitos de autor. Contúdo, a proximidade de implementação destas leis gerou um tal protesto da sociedade civil que os políticos decidiram recuar tacticamente nas suas intenções. Não deixa - também por isso - de ser surpreendente que, um dia depois do protesto, o FBI tenha encerrado o Megaupload, um popular site de partilha de ficheiros sediado em Hong Kong. Terá esta acção alguma legitimidade?

 

Convém referir que uma fatia considerável dos utilizadores do Megaupload eram legítimos: grande parte de ficheiros xda-developer eram distribuídos através deste canal. Por comparação imagine-se que a Guardia Civil suspeitava que alguns terroristas da ETA utilizavam a A1 para transporte de materiais explosivos e, em resposta, decidiam encerrar permanentemente toda a auto-estrada. No caso do Megaupload, todos os utilizadores legítimos perderam os seus ficheiros. Será isto eficiente ou justo? Tecnicamente, não é difícil de utilizar serviços populares como o Dropbox ou o Facebook para partilhar ficheiros. E se o FBI também decidisse fechar estes sites? Qual seria a reacção pública? E que desculpas inventariam os políticos face a essa reacção?

 

O que se perde com este tipo de acções legais é exactamente aquilo que os direitos de propriedade intelectual pretendem defender: a inovação. Iniciar um negócio de redes sociais ou partilha de ficheiros torna-se mais difícil: além do risco normal de entrada, passa a existir risco de apreensão policial. O aparecimento de um novo Facebook/Dropbox/Cloud torna-se menos provável. Tudo em prol dos direitos de autor. Extendendo esta lógica, se a internet facilita a pirataria, então o melhor será encerrá-la de vez! 

publicado por Palamedes às 04:33

Janeiro 20 2012

Os gráficos seguintes reflectem reflectem uma certa contradição de um conceito difícil e amplamente debatido entre economistas: a armadilha de liquidez.

 

A primeira figura mostra que os EUA se encontram numa trajectória de saída da armadilha de liquidez em que se encontram. Armadilha de liquidez surge num contexto em que a procura por activos de curto prazo é tão elevada que a taxa de juro dos activos subjacentes torna-se próxima de zero. Neste cenário, o banco central deixa de ter o instrumento de política monetária convencional de ajuste das taxas de juro. A linha vermelha mostra a taxa de juro dos Fed Funds - neste momento a zero - e a linha azul mostra uma variação da regra de Taylor - uma equação que devolve a taxa de juro que o banco central desejaria manter dada a evolução da inflação e do PIB.

 

Mas na segunda figura, nem o limite inferior de 0% de taxas de juro parece impedir os investidores de continuarem a adquirir títulos de dívida alemã. Efectivamente esses títulos estão a transaccionar a taxas negativas o que significa que os credores estão dispostos a entregar mais dinheiro do que aquele que recebem no final do contrato. Explicações habituais envolvem normalmente a fuga dos investidores para activos de qualidade ou a necessidade de algumas instituições em deterem colateral de qualidade - um bem particularmente escasso nos dias de hoje. Mas será esta a história toda? Haverá explicações mais fundamentadas para o que está a acontecer no mercado de dívida alemão? (mais tarde darei a explicação que me parece mais plausível)

 

publicado por Palamedes às 16:43
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Janeiro 18 2012

Daniel Oliveira, especialista de vacuidades e má língua, presenta o leitor do Expresso online com mais uma peça de opinião típica de quem tem de debitar artigos numa elevada frequência. Isto é, sem parar para reflectir no que escreve.

 

A opinião deste cronista incide sobre uma medida que o governo considera implementar para dinamizar o mercado de trabalho em Portugal. A proposta consiste num esquema de incentivos em que os desempregados que aceitem um emprego com um salário inferior ao seu subsídio poderão manter até 50% desta prestação social nos primeiros seis meses de trabalho e até 25% durante os seis meses seguintes. E como é que o Daniel Oliveira se posiciona segundo esta proposta: é contra! naturalmente. Este justifica que esta é uma medida contra o trabalhador porque desta maneira o governo cria uma pressão muito grande para a saída do desemprego com a obtenção de um salário mais baixo.

 

Daqui podemos imediatamente concluir que Daniel Oliveira acha que parte do elevado desemprego em Portugal é causado por um subsídio de desemprego generoso em relação ao último salário; desta maneira os desempregados aumentam a sua capacidade de negociação face a um potencial empregador, ameaçando não aceitar a proposta emprego se o salário negociado não for o desejável (em linha do subsídio de desemprego calculado com base no último salário). E, segundo o próprio, assim é que está bem! O que Daniel Oliveira não considera são, pelo menos, 4 pontos importantes:

  • Parte do capital humano de um empregado é específico ao seu trabalho corrente (e mesmo à empresa). Assim é natural, que após uma separação, um trabalhador perca imediatamente parte da sua capacidade de gerar rendimento (salário) devido à destruição deste capital específico.
  • Já a parte do capital humano geral, e como tal valorizada por todos os empregadores no mercado, vai-se depreciando à medida que um trabalhador permanece no desemprego; isto é, um trabalhador que fique em inactividade vai perdendo competências que são importantes num emprego. Como tal o salário esperado de oferta potencial vai diminuindo com o tempo de desemprego.
  • O incentivo à procura de emprego é tanto maior quanto for a diferença esperada entre o benefício de trabalhar e o benefício de não trabalhar. Para além de um subsídio de desemprego muito generoso (face às ofertas esperadas), outros factores reduzem o benefício de trabalhar: custos de transportes (SCUTS), custos de mobilidade (mercado de arrendamento oneroso), custos de não produção doméstica (jardins-de-infância caros), etc.. Daqui resulta que o incentivo líquido à procura de emprego pode ser excessivamente pequeno.
  • Nem todas as dinâmicas no mercado de trabalho se resumem a transições desemprego-emprego. Uma parte considerável destas dinâmicas também passam por transições emprego-emprego. Significa isto que um trabalhador não tem de se prender eternamente a um determinado emprego. Mesmo depois de estar empregado pode sempre continuar a procurar por outros empregos e mudar para uma alternativa melhor se a conseguir encontrar.
Ou seja, por todas estas razões, a medida apresentada pelo governo tenta contrariar um mercado de trabalho que , em Portugal, é esclerótico. Daniel Oliveir está contra! Daniel Oliveira está mais a favor do status quo! De manter tudo na mesma. Mesmo quando a taxa de desemprego em Portugal já ultrapassa os 13%. E, acima de tudo - acima de tudo! - quando o número de desempregados de longa duração é superior a 50% dos desempregados em Portugal - o vergonhoso valor mais elevado da zona euro em 2010. Daniel Oliveira acha que os quase 400.000 desempregados portugueses à mais de 1 ano precisam de mais de tempo para encontrar o emprego ideal e não devem ser ludibriados com incentivos de reingresso no mercado de trabalho. 
Ideal mesmo era que Daniel Oliveira não expusesse a sua ignorância em público. É que um grave problema para os desempregados portugueses passa também pelo tipo de crónicas que Danieis Oliveiras publicam.
publicado por Palamedes às 01:33
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Janeiro 17 2012

Algumas ligações na internet

  • Vamos ver se entendi bem... - no (Blasfémias) aponta um erro muito grosseiro num artigo do jornal Público
  • epílogo - (Jugular) excelente lista músical seleccionada por Paulo Pinto
  • Pastél de Nata - (Momentos Económicos) Pedro Pita Barros esclarece o relevante das reacção a umas declarações do minístro da economia
  • No fio da navalha - (O Insurgente) uma crónica que convida o leitor a reflectir no modelo de desenvolvimento para o país
  • Somos Lixo - (A destreza das dúvidas) estarão os portugueses cientes das razões que levaram a S&P a baixar a notação da républica?
  • Construção da máfia portuguesa (Abrupto) Pacheco Pereira com bons argumentos sobre certas dinâmicas promíscuas dos partidos
  • Os "erros" da wikipedia (Vento Sueste) O DN decide assinalar o aniversário da wikipidia apontando os seus erros, esqueçendo-se de apontar os seus próprios
E, terminado o Encontro Anual da American Economic Association, ficam também algumas ligações para os seus webcasts

 

 

publicado por Palamedes às 02:47
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Janeiro 15 2012

Deixem-me tentar demonstrar de como os economistas - simples servos da causa social - estão entre os profissionais mais modestos que se pode encontrar e somente comparáveis à classe dos monges budistas. 

 

A frase de apresentação de um blogue de economistas portugueses - A Destreza das Dúvidas - revela humildemente que aquele é:

"Um blogue de tipos que percebem montes de Economia, História, Filosofia, Cinema, Literatura, Religião e Pontes. Numa palavra, holísticos."

Imediatamente fiquei a pensar num outro comentário proferido pelo grande economista Joseph Schumpeter sobre as suas aspirações que se resumiam a:

"3 grandes objectivos de vida: ser o maior amante de Viena, o mais capaz cavaleiro da Áustria, e o melhor economista do Mundo."

Mais tarde Schumpeter concluiu que 2 dos seus 3 objectivos haviam sido alcançados sem nunca indicar a qual dos 2 se referia.

 

Enfim, muita modéstia nas sábias palavras destes economistas que Mankiw, munido até de um estudo académico, explica da seguinte maneira:

Talvez os atributos que fazem um economista bom na sua profissão estão, por alguma razão, negativamente correlacionados com os atributos associados a seres humanos agradáveis. Isto é, a ciência económica poderá ser atraente a pessoas com um conjunto particular de atributos, e se calhar esses atributos não são os mesmos que uma pessoa deseje no seu companheiro do lado num jantar."

 

Já me estava a esquecer de mais uma citação que, para mim, entra directamente nas clássicas: Carlos Costa para João Galamba (vídeo)
"Desculpe, deixa-me acabar porque isso é uma ignorância total(...) Se não sabe o que é "crowding out", vá aprender.(...) Se não querem reconhecer a realidade, não a reconheçam. Batam com a cabeça na parede. Mas a realidade é sempre mais resistente que a cabeça; disso podem ter a certeza."
publicado por Palamedes às 22:56
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Janeiro 15 2012

Num determinado debate na SIC Notícias a certa altura Manuela Ferreira Leite, quando questionada por António Barreto se fazia sentido discutir se alguém com mais de 70 anos tem direito à hemodiálise,  afirma o seguinte

"Tem sempre direito se pagar"

Este comentário gerou imediatamente um chorrilho de indignações - mesmo insultos - à antiga ministra (1,2,3). É certo que frase utilizada não foi a mais acertado no contexto da hemodiálise em particular, mas a discussão centrava-se, não no tema particular da hemodiálise mas na possibilidade de racionamento de um sistema nacional de saúde que se poderá tornar excessivamente caro para o nível de riqueza produzido.

 

O que, no entanto, ficou registado no pensamento dos indignados foi a pretensa intenção de Manuela Ferreira Leite excluir os pobres dos cuidados de saúde. Mas esta interpretação literal daquilo que foi dito abstrai-se completamente daquilo que deveria ser fundamental para a discussão: a verdadeira questão de princípio. É impossível formar escolhas de consumo - seja do restaurante onde jantar hoje à noite, seja de cuidados de saúde - se essas escolhas encontram-se fora do alcance do que é permitido pela restrição orçamental. Sendo que o orçamento para os cuidados de saúde é necessariamente limitado pela capacidade de produção do país, então certas escolhas na prestação desses serviços têm necessariamente de ser feitas. 

 

Ou partindo da verdadeira questão de princípio o que teriam os indignados a criticar se em vez da hemodiálise e de pessoas de 70, estivéssemos a falar de um transplante de coração numa pessoa de 100 anos - com um custo de aproximadamente 1 milhão de euros. Devem ter todas as pessoas de 100 anos e necessidade de um transplante de coração ter esse procedimento como direito adquirido?

 

(Como complemento de uma discussão do género deixo aqui um pequeno vídeo de Milton Friedman).

 

publicado por Palamedes às 18:51
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Janeiro 14 2012

 

Gráficos que marcaram 2011 (desta fonte).

 

O primeiro sugere que uma nova vaga de incumprimentos de obrigações soberanas pode estar próximo. O segundo mostra que o período de taxas de juro baixas e bastante semelhantes foi uma excepcção a uma regra bastante notória no gráfico.

 

 

publicado por Palamedes às 03:30
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Janeiro 13 2012

A aritmética pode, por vezes, ser bastante desagradável especialmente quando confrontada com aqueles que a desdenham. Ainda há uns tempos, um tribunal português obrigou os canais generalistas de televisão a organizarem debates entre todos(!) os partidos inscritos nas eleições legislativas. Aplicando a desagradável aritmética neste caso particular, e dado que existem 20 partidos inscritos na Comissão Nacional de Eleições, teriam de ser realizados 190 debates televisivos. Se se adicionasse 23 partidos - já extintos - aos que ainda estão em actividade, então teriam de ser realizados 903 debates. A uma média de 30 minutos por debate, teríamos quase 19 dias ininterruptos, 24/24, em confrontos televisivos. O bom senso aritmético demonstraria claramente o atoleiro de tal decisão. Assim, a única conclusão que se pode retirar é a completa inaptidão cognitiva de alguns juízes que exercem no nosso país. Tal não seria muito grave se fosse apenas uma decisão isolada. Mas não é.

 

Em vias de ser aprovada com "amplo consenso", o projecto de lei 118 é mais um daqueles exemplos que exemplifica bem a ignorância "consensual" daqueles que governam o país. A proposta de lei em causa pretende defender os direitos concedidos pelo Estado a um grupo específico de cidadãos - os autores - através da tributação preventiva de diversos aparelhos electrónicos (impressoras, CDs, ipods, usb drives, discos rígidos) pelo potencial uso lesivo que os consumidores possam dar a esses aparelhos na reprodução de material ilícito. O montante taxado é transferido para a Associação Portuguesa de Autores. A justiça moral de tal legislação é por si só surreal e é reprovável em inúmeras dimensões (mais detalhes podem ser encontrados na Jonasnuts, Blasfémias ou neste grupo no facebook). Nesta crónica vou-me apenas concentrar nas implicações aritméticas deste projecto de lei, em particular no que diz respeito às taxas a pagar na aquisição de discos rígidos.

 

Segundo o conteúdo desta lei, na compra de um disco rígido o consumidor terá de pagar 2 cêntimos por gigabyte até o primeiro terabyte e 2,5 cêntimos por cada gigabyte adicional. Aos olhos do legislador este montante até pode parecer bastante razoável, mas tal conclusão só pode ser defendida por quem vive num horizonte temporal inferior a 4 anos. Para a maioria das pessoas o horizonte temporal é no entanto bem mais alargado. A sobejamente conhecida lei de Moore evidencia que a evolução do hardware computacional ocorre num regime exponencial; montantes que hoje nos parecem grandes, amanhã serão considerados triviais - qualquer pessoa ainda se lembra de computadores com 50 ou 100 megas de memória. Graficamente observa-se que a evolução da capacidade de armazenamento assume uma forma semelhante à de um taco de hockey:

 

Fonte para os dados: wikipedia (controversos mas dá para ficar com uma ideia)

 

O gráfico da direita mostra a evolução da capacidade de armazenamento dos discos rígidos nos últimos 30 anos e o da esquerda é uma mera transformação logaritmica do mesmo gráfico. Daqui pode-se concluir que, em média, nos últimos 30 anos, os discos rígidos aumentaram em cada ano quase 45% de capacidade em relação ao ano anterior. Com este número, uma regra de 3 simples permite fazer algumas previsões sobre o rendimento que a Associação Portuguesa de Autores irá receber do consumidor, só devido à aquisição de discos rígidos (admitindo que o consumidor adquire esse material em Portugal).

 

Para simplificar a álgebra ao máximo vamos admitir que em 2010 existem em Portugal 1 milhão de discos rígidos com um terabyte de memória e que todos esses discos rígidos são substituídos simultaneamente a cada 5 anos de acordo com a tecnologia vigente. 

  • em 2015 a capacidade de armazenamento de um disco rígido será cerca de 15Tb o que equivale a uma receita de cerca de 300 milhões de euros (menos de 1% do PIB do nação)
  • em 2020 a capacidade passa para 140Tb; em receita isto equivale a 3.5 biliões de euros - um número à volta de 3% do PIB
  • em 2025 estamos a ultrapassar 1 Petabyte com uma receita equivalente de mais de 30 biliões de euros (10-20% do PIB)
  • em 2030 ultrapassa-se 1 Exabyte: a receita correspondente é de cerca de 300 biliões de euros e por esta altura o nosso PIB não deve chegar para pagar aos autores portugueses (mas pode ser que a troika ajude)
  • em 2035 alcança-se o Zetabyte com uma justa receita de quase 3 triliões de euros (10% do PIB da União Europeia)
  • em 2040 temos o Yotabye - com uma receita de 25 triliões (e nem o Produto de toda a União Europeia já quase pode pagar aos autores portugueses)
  • em 2050 já teremos outra coisa qualquer e uma receita que ultrapassa os 15 dígitos, pelo que seria necessário ao planeta Terra pedir alguns euros a Júpiter para pagar aos autores portugueses
  • e já agora daqui a 500 anos, mesmo que conseguissem encher o Universo com notas de 100 euros, não haveria o suficiente para pagar à Associação Portuguesa de Autores.
Tudo e mais além pela solidariedade dos autores portugueses prontamente defendidos pelo Projecto de Lei 118.
Como é obvio este artigo é uma caricatura daquilo que irá realmente acontecer. Nem os discos rígidos vão evoluir tão rapidamente (aliás existem limites físicos para a sua capacidade de armazenamento por unidade de espaço), nem os consumidores irão pagar essas taxas quando podem adquirir o mesmo material por metade do preço em Espanha ou Reino Unido (convenientemente entregue por serviço postal). O que este artigo pretende mostrar é que o PL118 não é justo nem para os autores nem para os consumidores e, acima de tudo, não é exequível - os montantes envolvidos têm o potencial de se tornarem rapidamente astronómicos. Face a isto, os consumidores serão relativamente rápidos a contornarem esta legislação.
publicado por Palamedes às 08:31
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Janeiro 12 2012

Já desde há muito tempo que entre os estudantes de economia, tão aptos e adeptos de divisões de opinião, existe um consenso alargado: a Economia é uma ciência quantitativa. Schumpeter, ilustre economista do século XX, vai ainda mais longe ao referir que "a Economia é a mais quantitativa, não apenas das ciências 'sociais' ou 'morais', mas de todas as ciências, não excluindo a Física" - ou como podem existir transacções, preços, ou valorações sem quantidades ou ordenações numéricas associadas destes conceitos?

 

É desta maneira claro que o conceito de maximização encontra-se naturalmente associado às mais profundas fundações da Economia enquanto ciência. Mas desenganem-se aqueles que acham os economistas como sectários ou que pertencem a alguma 'escola' com um determinado credo, científico ou metafísico. Desenganem-se também os que julgam que a Economia só pode ser pensada através do uso exclusivo da matemática ou que se encontra indiferente ao objecto do estudo de historiadores, antropólogos, sociólogos, etc.. Muito antes pelo contrário. Uma definição clara e muito popular entre economistas - por tão eloquentemente economizar no acessório - é a introduzida por Lionel Robbins:

"Economia é a ciência que estuda o comportamento humano como uma relação entre fins e meios escassos com usos alternativos."

Nada nesta definição é sugerido sobre a intenção ou a formação dos fins, mas quanto aos meios esta definição implica que estes sejam usados com descernimento através de seres humanos com capacidade de racionalidade acima à de qualquer outra criatura viva. Uma forma de operacionalizar este 'descernimento' é utilizando o princípio da maximização. Como Samuelson tão bem notou, este não é um príncipio aplicado apenas em economia, mas também na maior parte das ciências naturais: um físico descreverá que - "uma bola de Galileu desce num plano inclinado como se minimizasse o integral da acção ou minimizasse o integral de Hamilton" ou "um raio de luz viaja sobre o ar entre dois pontos como se descrevendo um arco que pode ser defenido atravez de um problema de minimização em cálculo de variação". O conceito que aqui é fundamental é o de 'como se' - 'as if'. Decerto que nem o raio de luz nem a bola de Galileu resolvem conscientemente um problema de optimização, mas é como se o fizessem; e é esta descrição simples e económica que permite aos físicos formular previsões e uniformidades na natureza. A metodologia em Economia assume este príncipio de maximização de forma equivalente. Não que os consumidores resolvam conscientemente problemas de maximização de felicidade ou que os produtores resolvam necessariamente minimizações de custos. Mas é como se o fizessem. É este tipo de análise que permite aos economistas formularem as suas previsões e uniformidades no comportamento económico.

 

Neste blogue comentarei a realidade económica envolvente utilizando a metodologia de análise associada à Economia. O título - Mecanismo de Revelação - refere-se a um resultado em teoria de jogos no estudo da relação principal-agente, onde o principal - ávido por maximizar o benefício da sua interacção com o agente - estabelece numa 1a etapa um mecanismo, contrato ou esquema de incentivos; numa 2a etapa, o agente - com certas caracteristicas que o principal desconhece - decide participar ou não no contrato; e numa 3a etapa o principal e os agentes que decidiram participar 'jogam' o mecanismo. O princípio da revelação estabelece que, no seu obejctivo, o principal pode considerar apenas mecanismos onde todos os agentes aceitam o participar no contrato na 2a etapa, e na 3a anunciam honestamente as suas características interínsecas (este princípio foi enunciado por diversos economistas: Gibbard 1973, Green e Laffont 1977 ou Dasgupta, Hammond e Maskin 1979). Um resultado notável que reduz consideravelmente dimensionalidade do problema do principal e que facilita a sua aplicação em problemas tão diversos como o da discriminação de preço, regulação, tributação de rendimento, bens públicos, leilões, barganha, etc.. O blogue Mecanismo de Reveleção intrepretará a realidade utilizando mecanismos e métodos usados na Economia. Com isto espera-se que a revelação seja a do maior interesse para o leitor.

 

(o mesmo leitor interessado pode o livro de texto do Fundenberg e Tirole (1991) "Game Theory" para uma descrição mais promenorizada do príncipio de revelação entre outros conceitos em Teoria de Jogos)

 

 

publicado por Palamedes às 00:08
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